Fermina Daza estava na cozinha provando a sopa para o jantar, quando ouviu o grito de horror de Digna Pardo e o alvoroço da criadagem da casa e depois da vizinhança. Atirou a colher de pau e tratou de correr como pôde com o peso invencível da idade, gritando feito uma louca sem saber ainda o que acontecia debaixo da copa da mangueira e o coração lhe estourou em estilhaços quando viu seu homem estirado de costas no lodo, já morto em vida, mas resistindo um último minuto à chicotada da morte para que ela sua mulher tivesse tempo de chegar. Chegou a reconhecê-la no tumulto através das lágrimas da dor que jamais se repetiria de morrer sem ela, e a olhou pela última vez para todo o sempre com os mais luminosos, mais tristes e mais agradecidos olhos que ela jamais vira no rosto dele em meio século de vida em comum, e ainda conseguiu dizer-lhe o último alento:
- Só Deus sabe quanto amei você.
(...)
Não lhe tinha sido fácil recuperar esse domínio a partir do momento em que ouviu o grito de Digna Pardo no quintal e encontrou o ancião de sua vida agonizando no lodo. Sua primeira reação foi de esperança porque ele tinha os olhos abertos e um brilho de luz radiante que ela jamais lhe vira nas pupilas. Rogou a Deus que lhe concedesse ao menos um instante para que ele não partisse sem saber quanto o amara por cima das dúvidas de ambos e sentiu a premência irresistível de começar a vida com ele outra vez desde o começo para que dissessem tudo que tinham ficado sem dizer e fizessem bem qualquer coisa que tivessem feito mal no passado. Mas teve que render-se à intransigência da morte.
O amor nos tempos do cólera, Gabriel García Márquez.
"Só Deus sabe quanto amei você." E você se quer tomou conhecimento. Quisera eu ter dito e repetido inúmeras vezes, mas as vezes temos medo. Medo de que tudo se resuma a poucas respostas, e a resposta reservada para nós seja o não, como quando se fecha uma porta que dá para um lugar iluminado, nos deixando no mais completo e vazio escuro.(era o mais provável, visto o histórico)
ResponderExcluirSei que o sentido não é o mesmo do texto, do amor, sim. E o de ter um recomeço também. Mas, não tive um meio ou uma história dividida. Portanto, ainda recuperando o arrependimento de não ter aproveitado e demostrando o que sinto, sei lá... Acho que melhor era nem ter publicado.
p.s.: Mais que coisa! Tinha escrito algo que considerei ligeiramente aceitável para você, mas quando precisei confirmar apagou. Agora estou magoado. Não ficou o exatamente como da primeira vez.
p.s.:De todo modo, acho que você não vai ler.
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