domingo, 4 de setembro de 2011

Nas margens de mim.

Quando o sol acena, bate em mim.
Diz valer a pena ser assim.
Que no fundo é simples ser feliz.
Difícil é ser tão simples.
Difícil é ser tão simples.
Difícil mesmo é ser.

(O Teatro Mágico e Leoni)



p.s.: A foto da Akemi ficou tão linda que em todo lugar que eu colocava o nome dela parecia que tampava algo essencial. Então, deixei sem.

domingo, 14 de agosto de 2011

melhor dos dois.



Fermina Daza estava na cozinha provando a sopa para o jantar, quando ouviu o grito de horror de Digna Pardo e o alvoroço da criadagem da casa e depois da vizinhança. Atirou a colher de pau e tratou de correr como pôde com o peso invencível da idade, gritando feito uma louca sem saber ainda o que acontecia debaixo da copa da mangueira e o coração lhe estourou em estilhaços quando viu seu homem estirado de costas no lodo, já morto em vida, mas resistindo um último minuto à chicotada da morte para que ela sua mulher tivesse tempo de chegar. Chegou a reconhecê-la no tumulto através das lágrimas da dor que jamais se repetiria de morrer sem ela, e a olhou pela última vez para todo o sempre com os mais luminosos, mais tristes e mais agradecidos olhos que ela jamais vira no rosto dele em meio século de vida em comum, e ainda conseguiu dizer-lhe o último alento:
- Só Deus sabe quanto amei você.

(...)

Não lhe tinha sido fácil recuperar esse domínio a partir do momento em que ouviu o grito de Digna Pardo no quintal e encontrou o ancião de sua vida agonizando no lodo. Sua primeira reação foi de esperança porque ele tinha os olhos abertos e um brilho de luz radiante que ela jamais lhe vira nas pupilas. Rogou a Deus que lhe concedesse ao menos um instante para que ele não partisse sem saber quanto o amara por cima das dúvidas de ambos e sentiu a premência irresistível de começar a vida com ele outra vez desde o começo para que dissessem tudo que tinham ficado sem dizer e fizessem bem qualquer coisa que tivessem feito mal no passado. Mas teve que render-se à intransigência da morte.


O amor nos tempos do cólera, Gabriel García Márquez.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Férias.

Às cegas, às tontas, tenho feito o que acredito, do jeito talvez torto que sei fazer. (Caio F.)

Além do horizonte deve ter.

Retrovisor mostra meus olhos com lembranças mal resolvidas. (TM)

E talvez nem seja preciso coragem. Talvez seja necessário apenas um breve impulso, como aquele que me fazia mergulhar de repente na água gelada do açude da fazenda. E eu nem era corajoso por fazer isso, apenas tinha esquecido por um instante de mim, de meu corpo. (Caio F.)

E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro.
...

(...) E então serás maravilhoso quanto me tiveres cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo. (O Pequeno Príncipe)

Sustente-se.

Que bom que todo dia fosse sempre assim.

E nos esquecemos da cor que tinha o céu azul.

Borboleta que fugiu de casa. (TM)

Flor parece a gente, pois somos sementes do que ainda virá. (TM)

Você consegue sentir o verde?

De cima da pedra mais alta.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Deriva fotográfica do bem.


Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música. (Aldous Huxley)

Meu trabalho mais que forçado morrendo comigo na mão. (O Mérito e o Monstro, O Teatro Mágico)

Me dê a mão, vamos sair pra ver o sol. (Telegrama, Zeca Baleiro)

Me fiz em mil pedaços pra você juntar. (Quase sem querer, Legião Urbana)

Pela rua, flores e amigos me encontram vestindo o meu melhor sorriso. (Temporada das flores, Leoni)

Liberdade, em filosofia, designa de uma maneira negativa, a ausência de submissão, de servidão e de determinação, isto é, ela qualifica a independência do ser humano. De maneira positiva, liberdade é a autonomia e a espontaneidade de um sujeito racional. Isto é, ela qualifica e constitui a condição dos comportamentos humanos voluntários.

Que falte tudo, menos água e liberdade.



Céu azul é o telhado do mundo inteiro. (Eu não sei na verdade quem eu sou, O Teatro Mágico)

Da semente mais rica nasceram flores do mal. (Flores do mal, Barão Vermelho)

Mais fácil viver de sombras que de sóis. (Minha casa, Zeca Baleiro)

O outro lado da rua.

Fotos do dia 28 de maio, na Deriva fotográfica do bem.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Vigília



Enquanto estávamos assistindo o vídeo do TM eu assistia outra coisa na tela do computador: o reflexo dos olhos dela cheio de lágrimas. E aquela imagem foi a cena mais linda de muitos dias.
Incrível como as coisas acontecem de um jeito perfeito, com uma afinação inacreditável. É, pode acreditar, afinação acontece. Acordes soando de forma harmoniosa, ao mesmo ritmo. Uma mesma música se repetindo várias e várias vezes sempre pela última vez.
E era isso que estava acontecendo naquela hora. A música, a cena, a imagem da guria refletida, os olhos, da cor da tempestade que chega, cheios d'água, um cheiro de colônia de pitanga misturado com o cheiro delicioso de livros. Uma afinação musical perfeita.
Aqueles olhos esperavam aquele milagre do vídeo, o que nunca acontecia. Ou talvez lembrasse de um outro milagre que já tinha acontecido. Não era aquele que ela tinha pedido pra estrela cadente, mas é porque ela só tinha cinco segundos e teve que fazer o pedido. E fez. E fez! Enquanto estava de olhos fechados. Enquanto estava de olhos fechados, ela imaginava os seus sonhos acordando, imaginava a esperança batendo na porta da sua casa.
Desse dia em diante, ela fez vigília todos os dias do telhado da sua casa. Deu conta de todas as montanhas e torcia, torcia pra que elas saíssem do lugar pra poder ver o brilho da estrela que tinha caído. Brilho de luz ao fundo, estrela a brilhar, sonhos a sorrir, milagres acontecendo, esperança de pé.
Então, um dia, ela conseguiu. As montanhas se moveram e ela podia ver a estrela, o brilho dela. Era essa a última imagem que via antes de dormir. Era uma alegria imensa, os olhos enchiam de lágrimas, não se sabe se por emoção ou pelo brilho ofuscante da estrela.
Só que uma vez, antes de dormir, ela olhou pro lugar onde a estrela sempre estava, só que não a viu. Foi uma coisa tão estranha, afinal, algo estava faltando. De repente, sentiu alguma coisa em si mesma, e quando olhou, era a estrela. A estrela estava dentro dela, no lugar do coração. Porque gente assim tem uma estrela no lugar do coração.
É, aquela era uma menina única no mundo. Como um número de identidade, como uma placa de carro, como as vozes, como as listras das zebras, como cada instante no mundo, como o menino varrido, como o gurizinho dos Capitães da Areia, como a rosa do pequeno príncipe, como a estrela da música que caiu no fundo do mar.
E uma vez, eu li que único é aquilo, que pela facilidade de virar nenhum, merece ser cuidado.

terça-feira, 15 de março de 2011

Fix you.


Algumas coisas acontecem só pra gente ficar bem. Nem que seja só naquela hora, mas acontecem somente pra que a gente ache que o mundo ainda tem jeito, que ter esperança de algo melhor faz bem, e que pode até ser fácil.
Essas coisas - que acontecem só pra gente ficar bem - acontecem quando a gente está mal. Não mal, mas com uma fé solúvel, tão rala quanto café quando se coloca água demais. Elas acontecem em aniversários de um ano, em meses de muita chuva, na semana que a espera é tão ruim, no dia em que já foram limpas todas as janelas e arrumados todos os guarda-roupas porque você não aguenta mais esperar por aquela coisa que você sempre esperou. Desde muito tempo.
Além disso, essas coisas não são significativas. Não a um olhar comum. Elas são sempre "pequenas coisas que são grandes". Como as luzinhas coloridas da casa do cara com o nome de índio. Como uma frase de vó com som de muito amor em muitos anos. Como uma coisinha preta em cima de uma árvore num dia de chuva. Uma coisinha preta igual carvão riscado no papel branco, que mia pedindo um lugar quentinho, pedindo que você a salve, que você se salve, te escolhendo pra ser amado. Pra te dar companhia. Pra serem amigos.
Foi isso que aconteceu. Ela finalmente tinha conseguido o que tanto sonhara. E no entanto, aquele dia não chegava nunca. Ela tentava alcançar o sonho, ficava na ponta dos pés pra poder pegar. Teve a ideia de ir buscar um banquinho. O buscou, subiu, ponta dos pés, braços erguidos, até que sentiu. Podia senti-lo nas mãos, algo pequeno, com uma textura fofa, peludinha.
Era uma daquelas coisas - que acontecem só pra gente ficar bem, nas horas que a nossa fé está mais rala que café quando se coloca muita água -. E é a coisinha que eu disse. A preta igual carvão riscado no papel branco, que mia pedindo um lugar quentinho, pedindo que você a salve, que você se salve, te escolhendo pra ser amado. Ela aparece e, literalmente, te escolhe. Te diz: Eu vou fazer isso por você. Vou tentar ajudar você a se consertar. Vou te ajudar a colocar mais pó e mais açúcar nesse café seu aí. Te mostrar que coisas boas acontecem enquanto você está tão obcecada por algo, que não consegue ver mais nada. Vou te ensinar que o que realmente é pra ser nosso, vai ser. Você faz a sua parte, que é sonhar e ir atrás. E deixa que o que é pra ser seu faça o resto. O jeito que eu arrumei pra fazer isso foi miando de cima da árvore nesse dia de chuva. Eu vim fazer isso de uma forma pra ocupar o seu tempo, pra bagunçar o seu guarda-roupa pra que você o arrume de novo, pra te arrumar mais amor, um amor de verdade, desses que não se pode comprar. Estou te dando o meu coração. E tô aqui pra cuidar do seu.
Então a moça pergunta: Por que está fazendo isso? E a coisinha só responde: Porque você tá precisando.

E foi isso. Viu só? Coisas boas acontecem em horas que não parecem tão boas quanto são. Horas desconexas, mas que se você for olhar, fazem um certo sentido.