quarta-feira, 20 de abril de 2011

Vigília



Enquanto estávamos assistindo o vídeo do TM eu assistia outra coisa na tela do computador: o reflexo dos olhos dela cheio de lágrimas. E aquela imagem foi a cena mais linda de muitos dias.
Incrível como as coisas acontecem de um jeito perfeito, com uma afinação inacreditável. É, pode acreditar, afinação acontece. Acordes soando de forma harmoniosa, ao mesmo ritmo. Uma mesma música se repetindo várias e várias vezes sempre pela última vez.
E era isso que estava acontecendo naquela hora. A música, a cena, a imagem da guria refletida, os olhos, da cor da tempestade que chega, cheios d'água, um cheiro de colônia de pitanga misturado com o cheiro delicioso de livros. Uma afinação musical perfeita.
Aqueles olhos esperavam aquele milagre do vídeo, o que nunca acontecia. Ou talvez lembrasse de um outro milagre que já tinha acontecido. Não era aquele que ela tinha pedido pra estrela cadente, mas é porque ela só tinha cinco segundos e teve que fazer o pedido. E fez. E fez! Enquanto estava de olhos fechados. Enquanto estava de olhos fechados, ela imaginava os seus sonhos acordando, imaginava a esperança batendo na porta da sua casa.
Desse dia em diante, ela fez vigília todos os dias do telhado da sua casa. Deu conta de todas as montanhas e torcia, torcia pra que elas saíssem do lugar pra poder ver o brilho da estrela que tinha caído. Brilho de luz ao fundo, estrela a brilhar, sonhos a sorrir, milagres acontecendo, esperança de pé.
Então, um dia, ela conseguiu. As montanhas se moveram e ela podia ver a estrela, o brilho dela. Era essa a última imagem que via antes de dormir. Era uma alegria imensa, os olhos enchiam de lágrimas, não se sabe se por emoção ou pelo brilho ofuscante da estrela.
Só que uma vez, antes de dormir, ela olhou pro lugar onde a estrela sempre estava, só que não a viu. Foi uma coisa tão estranha, afinal, algo estava faltando. De repente, sentiu alguma coisa em si mesma, e quando olhou, era a estrela. A estrela estava dentro dela, no lugar do coração. Porque gente assim tem uma estrela no lugar do coração.
É, aquela era uma menina única no mundo. Como um número de identidade, como uma placa de carro, como as vozes, como as listras das zebras, como cada instante no mundo, como o menino varrido, como o gurizinho dos Capitães da Areia, como a rosa do pequeno príncipe, como a estrela da música que caiu no fundo do mar.
E uma vez, eu li que único é aquilo, que pela facilidade de virar nenhum, merece ser cuidado.