Algumas coisas acontecem só pra gente ficar bem. Nem que seja só naquela hora, mas acontecem somente pra que a gente ache que o mundo ainda tem jeito, que ter esperança de algo melhor faz bem, e que pode até ser fácil.
Essas coisas - que acontecem só pra gente ficar bem - acontecem quando a gente está mal. Não mal, mas com uma fé solúvel, tão rala quanto café quando se coloca água demais. Elas acontecem em aniversários de um ano, em meses de muita chuva, na semana que a espera é tão ruim, no dia em que já foram limpas todas as janelas e arrumados todos os guarda-roupas porque você não aguenta mais esperar por aquela coisa que você sempre esperou. Desde muito tempo.
Além disso, essas coisas não são significativas. Não a um olhar comum. Elas são sempre "pequenas coisas que são grandes". Como as luzinhas coloridas da casa do cara com o nome de índio. Como uma frase de vó com som de muito amor em muitos anos. Como uma coisinha preta em cima de uma árvore num dia de chuva. Uma coisinha preta igual carvão riscado no papel branco, que mia pedindo um lugar quentinho, pedindo que você a salve, que você se salve, te escolhendo pra ser amado. Pra te dar companhia. Pra serem amigos.
Foi isso que aconteceu. Ela finalmente tinha conseguido o que tanto sonhara. E no entanto, aquele dia não chegava nunca. Ela tentava alcançar o sonho, ficava na ponta dos pés pra poder pegar. Teve a ideia de ir buscar um banquinho. O buscou, subiu, ponta dos pés, braços erguidos, até que sentiu. Podia senti-lo nas mãos, algo pequeno, com uma textura fofa, peludinha.
Era uma daquelas coisas - que acontecem só pra gente ficar bem, nas horas que a nossa fé está mais rala que café quando se coloca muita água -. E é a coisinha que eu disse. A preta igual carvão riscado no papel branco, que mia pedindo um lugar quentinho, pedindo que você a salve, que você se salve, te escolhendo pra ser amado. Ela aparece e, literalmente, te escolhe. Te diz: Eu vou fazer isso por você. Vou tentar ajudar você a se consertar. Vou te ajudar a colocar mais pó e mais açúcar nesse café seu aí. Te mostrar que coisas boas acontecem enquanto você está tão obcecada por algo, que não consegue ver mais nada. Vou te ensinar que o que realmente é pra ser nosso, vai ser. Você faz a sua parte, que é sonhar e ir atrás. E deixa que o que é pra ser seu faça o resto. O jeito que eu arrumei pra fazer isso foi miando de cima da árvore nesse dia de chuva. Eu vim fazer isso de uma forma pra ocupar o seu tempo, pra bagunçar o seu guarda-roupa pra que você o arrume de novo, pra te arrumar mais amor, um amor de verdade, desses que não se pode comprar. Estou te dando o meu coração. E tô aqui pra cuidar do seu.
Então a moça pergunta: Por que está fazendo isso? E a coisinha só responde: Porque você tá precisando.
E foi isso. Viu só? Coisas boas acontecem em horas que não parecem tão boas quanto são. Horas desconexas, mas que se você for olhar, fazem um certo sentido.